segunda-feira, 2 de junho de 2025

2º TRIMESTRE - BREVE HISTÓRICO DA EJA NO BRASIL

 

Histórico da EJA no Brasil

Ao pensar a Educação de Jovens e Adultos, é preciso levar em consideração a trajetória histórica da modalidade e a bagagem que os atores sociais que fazem parte dela carregam: vidas marcadas por opressões, desigualdades, discriminações e exclusões. Logo, a EJA deve ser compreendida como direito humano fundamental e, como tal, necessita de constantes políticas públicas e recursos financeiros, pois “deve ser entendida como ‘crucial’ na superação da pobreza e da exclusão social” (Gadotti, 2009, p. 27).

Conforme Siqueira (2009), a Educação de Jovens e Adultos foi reconhecida como uma modalidade da Educação Básica em nosso país há poucos anos, através do artigo 4°, incisos I ao XI, da LDB 9.394/ 1996. Entretanto, vale destacar que essa Educação de Jovens e Adultos perpassa um longo histórico desde a colonização do Brasil, conforme pontuam Naiff (2008) e Beleza e Nogueira (2020).

Segundo Beleza e Nogueira (2020), durante a colonização do Brasil, quando os jesuítas iniciaram sua missão, jovens e adultos passaram por um processo oralizado de formação religiosa. Tempos depois, foram criadas as primeiras escolas que visavam atender filhos de colonizadores e filhos dos povos nativos. No entanto, já nesse período, iniciava-se a educação de classes, oferecendo oportunidades distintas para a elite e para os demais indivíduos. depois, a Constituição Federal de 1891 regulamentou que apenas pessoas que sabiam ler e escrever eram consideradas eleitores. Assim, com a Reforma João Luiz Alves, de 1925, passou a acontecer o ensino noturno para jovens e adultos e, a partir da década de 1930, movimentos em combate ao analfabetismo criam forma, sendo impulsionados pelos interesses da elite brasileira que buscava mais eleitores (Beleza; Nogueira, 2008).

Na Era Vargas, com a Constituição Federal de 1934, assegurou-se a obrigatoriedade e a gratuidade do acesso ao ensino primário para todos. Com a criação do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), foram iniciadas políticas públicas que se voltavam à Educação de Jovens e Adultos, especialmente para os analfabetos, já que o analfabetismo era considerado algo extremamente danoso e vergonhoso para o país (Naiff, 2008).

Conforme Naiff (2008), na década de 1960, começam programas voltados para a educação popular, em que se destaca a ação pioneira de Paulo Freire, que, além de buscar promover a alfabetização de adultos e jovens, buscou desenvolver a criticidade, a consciência de classe e o desenvolvimento de uma educação emancipadora. Ademais, no mesmo período, começam diferentes iniciativas para a educação das classes populares, como o Movimento de Educação de Base (MEB) da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e os Centros Populares de Cultura organizados pela União Nacional dos Estudantes (UNE).

Vale destacar que, na década de 1960, nascia um Plano Nacional de Alfabetização (PNA), pensado para atender às demandas educacionais da população brasileira, algo que atingiria as classes populares. A PNA começou a ser executada de janeiro a abril de 1964, tendo a iniciativa de Paulo Freire como uma base para o desenvolvimento de uma educação problematizadora, crítica e emancipadora (Beleza; Nogueira, 2008).

Esse projeto educacional promissor foi impedido de continuar, dando lugar ao Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) que aconteceria em todos os municípios, em que cada um ficaria responsável por implementá-lo e qualquer indivíduo poderia lecionar nele (Naiff, 2008). Como o MOBRAL nasceu em um contexto de educação tecnicista, ele enfrentou vários problemas e era ineficiente. Além disso, a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) 5.692/1971, que estabeleceu a implantação do ensino supletivo, o programa começou a decair ainda mais, até ser extinto em 1985, na Nova República (Beleza; Nogueira, 2020).

A partir dessa conquista, houve a criação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, em 2000, com a inclusão da modalidade no Plano Nacional de Educação (PNE) de 2001 e o acesso a financiamentos destinados à Educação Básica. Nascia uma nova concepção de educação para jovens e adultos, que além de romper com os estigmas que o público da EJA sofria há décadas (tidos como pessoas sem futuro, sem cultura, sem conhecimentos, incapazes, entre outros), passou a trazer as especificidades da modalidade, as demandas de seu público, os conteúdos curriculares e os projetos pedagógicos significativos. A EJA não era mais vista como uma educação “compensatória”, mas como uma oportunidade de garantir equidade e reparação histórica a indivíduos que foram privados de direitos ao longo da vida (Beleza; Nogueira, 2020).

Alfabetização e letramento na EJA

Conforme Soares (2021), a escrita, que surgiu há cerca de 4 mil anos, é uma técnica que foi desenvolvida mediante uma necessidade da humanidade ante suas demandas de registros que fossem materializados. A partir do desenvolvimento dessa tecnologia, nasceram diversas sociedades grafocêntricas, ou seja, sociedades centradas na escrita. Desse modo, tornou-se necessário dominar a escrita e a leitura, sendo a alfabetização o processo para que tal feito fosse possível. Contudo, os estudos apontam que não basta saber ler e escrever, é preciso compreender, saber como aplicar esse conhecimento em seu cotidiano, em sua prática social.

Especialmente no contexto dos letramentos, em que se promove o “alfaletrar” destacado por Soares (2021), a alfabetização torna-se necessária para o desenvolvimento de sujeitos em uma sociedade grafocêntrica, com o intuito de desenvolver indivíduos críticos, reflexivos, autônomos e conscientes. Logo, não há uma “receita de bolo” para que esse processo sistematizado e gradual ocorra. Contudo, devem ser utilizadas estratégias que respeitem a especificidade da alfabetização em cada etapa, além de aproveitar os conhecimentos prévios, as práticas sociais e o cotidiano para promover um desenvolvimento pleno.

A alfabetização é um processo multifacetado em que o indivíduo construirá seu conhecimento através de hipóteses, reflexões e práticas que possibilitem a apropriação da escrita e leitura. Assim, a alfabetização de jovens e adultos necessita de um trabalho ainda mais atento às especificidades da modalidade, já que as estratégias didático-pedagógicas não podem ser as mesmas utilizadas na alfabetização de crianças. Posto isso, Silva et al. (2021) apontaram a importância que a afetividade e o diálogo têm na alfabetização de jovens e adultos. Baseando-se nos estudos de Henri Wallon acerca da afetividade como parte fundamental do desenvolvimento humano, os autores destacam que ela facilita a construção de conhecimento, aproximando educador e educando, criando um ambiente favorável ao desenvolvimento e com risco menor de evasão.

Da mesma forma, Fuck (2012) destaca que, para desenvolver a alfabetização alinhada às demandas da EJA, é necessário o seguinte encaminhamento: excluir métodos que uniformizam os estudantes como se a aprendizagem acontecesse de forma idêntica para todos; integrar conteúdos; valorizar o que o educando traz; problematizar todas as situações; promover a união coletiva; organizar a sala de aula e as atividades de modo a oportunizar constantes reflexões e desenvolvimento da criticidade. 

A perspectiva freireana

Paulo Freire teve contribuição inegável para a EJA, especialmente na alfabetização de adultos. Afinal, opondo-se à educação tradicional, o educador propôs uma educação que possibilitasse a emancipação e o empoderamento das pessoas através da apropriação dos saberes. Seu método foi responsável por alfabetizar, conscientizar criticamente e resgatar vários sujeitos que viviam relações alienantes. A proposta se desenvolveu em Angicos/RN, no ano de 1963, com 40 horas de duração e cerca de 300 educandos alfabetizados.

Tudo iniciou-se com a problematização da cultura, pensando suas dimensões. Após o empoderamento dos indivíduos acerca da cultura, realizou-se um levantamento do universo vocabular do grupo, sendo selecionadas palavras que eram parte da realidade dos trabalhadores e tinham significação profunda. Depois, pensou-se em palavras que atendessem a critérios fonéticos e pragmáticos – assim nasciam as palavras geradoras (Freire, 1998).

Conforme Freire (1998), o próximo passo tratava-se de organizar essas palavras por complexidade e depois discutir e analisar profundamente cada uma, problematizando-as e levando em consideração seus impactos sociais. Posteriormente, a palavra geradora era separada em sílabas e, após o reconhecimento das sílabas, eram introduzidas as famílias fonéticas que deveriam ser exploradas até o educando conseguir criar novas palavras através das sílabas, os “pedaços”. Depois dos exercícios orais, era feita a escrita e os educandos tinham como tarefa trazer todas as palavras que conseguissem formar a partir das sílabas aprendidas.

Para potencializar o processo, foram utilizados recursos didáticos e criadas fichas auxiliares que norteavam os educadores.

Assim, a perspectiva freireana foi fundamental para a educação emancipadora ganhar lugar, já que ela reconheceu os trabalhadores como sujeitos ativos de sua história e não como objetos passivos que deveriam ser preenchidos por informações. Outro ponto relevante e que fez total diferença foi alfabetizar por meio da problematização acerca da realidade dos educandos e das mazelas sociais a que foram submetidos – algo inédito até então.

A EJA nos documentos educacionais oficiais

Conforme Gadotti (2009), é preciso dar relevância à EJA, entendendo-a como uma responsabilidade de todos, o que possibilitará a criação de políticas educacionais que realmente sejam eficientes para essa modalidade cujo caráter sociopolítico é inegável na construção de uma sociedade melhor. Contudo, o Brasil tem ido na contramão dessa perspectiva: segundo Oliveira (2015), as políticas públicas do país são ineficientes na garantia da EJA, na permanência e na continuação dos estudos do seu público.

Silva (2021) apontou as consequências da Política Nacional de Alfabetização (PNA)2 para a EJA, fazendo um apanhado das ações que têm marcado a modalidade. Assim, apesar da modalidade ser parte das metas do Plano Nacional de Educação (PNE), no que se refere à erradicação do analfabetismo absoluto e à redução em 50% do analfabetismo funcional, constatou-se que ela tem sido cada vez mais negligenciada. Prova disso é a sua ausência na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Assim, após a EJA ser reconhecida como modalidade em 1996, ela passou por marcos que contribuíram para seu avanço e permanência até 2016. Em 2003, criou-se a Comissão

Nacional de Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos, que vigorou até abril de 2019, quando foi extinguida. Ainda em 2003, nascia o Programa Brasil Alfabetizado (PBA), que permaneceu até agosto de 2016, quando também foi suspenso. Outro relevante marco foi a criação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD) em 2004. Na SECAD havia a Diretoria de Políticas de Alfabetização e Educação de Jovens e Adultos, que era responsável pelo PBA e pelo Programa Nacional do Livro Didático para EJA. No entanto, a secretaria também foi extinta no ano de 2019 e a EJA não recebeu uma área (seja secretaria ou departamento) destinada a ela no Ministério da Educação (Silva, 2021).

Desse modo, conforme Silva (2021), a partir de 2016, a EJA sofreu uma série de cortes e omissões, seguido pela emenda constitucional que congela investimentos nas políticas públicas por 20 anos e pelo governo, em 2019, que extinguiu diversos órgãos destinados à modalidade. Com a PNA de 2019, houve uma contribuição para que a EJA fosse mais negligenciada e desvalorizada.

Em suma, a Política Nacional de Alfabetização de 2019 não norteava o educador quanto às especificidades da EJA e o que deveria ser colocado em ação. Então, o professor tendia a reproduzir práticas que ocorrem na alfabetização de crianças. Ademais, é danoso reduzir a alfabetização às práticas superficiais, básicas e muito voltadas para a leitura, diminuindo a presença da escrita no processo e priorizando o método fônico – algo que fere a autonomia, a liberdade de cátedra do docente e limita a alfabetização. Por fim, destaca-se que o documento não citava as contribuições de Freire, o que representa um movimento de apagar a trajetória histórica da EJA e seu caráter social e político de luta pela emancipação das classes populares (Silva, 2021).

O processo de alfabetização na Educação de Jovens e Adultos (EJA): investigação em uma escola de rede municipal

Dedilene Alves de Jesus-Oliveira*

Rosemilla Patrícia da Silva Oliveira**

Thenner Freitas da Cunha**

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